Caminhos do amor

Criança, amor

CAMINHOS DO AMOR 

São, apenas, caminhos...
Na estrada do amor, onde tudo é possível.

Lucas nasceu, numa tarde chuvosa, em 21 de novembro de 1984. Seus pais uniram-se por laços matrimoniais em agosto de 1980. O casamento tinha se esvaído completamente, parecia não restar uma centelha de amor. Assim como acontece com muitos casais, depois de certo tempo, o tempero fica insosso e o semblante a contragosto.

A chegada de Lucas foi algo surpreendente: Mariana, mesmo tomando pílulas, engravidou! Ela estava se sentindo demasiadamente insegura com a sua vida conjugal e até pensou em abortar. Disseram-lhe que ela queria abortar a dor, assim como um suicida que nunca pensa, de fato, em se matar. Toda tentativa de morte é tentativa de livrar-se da própria dor interna.

Seu marido, Eduardo, era um homem boêmio. Casou-se com ela achando que na paixão havia maturidade suficiente para aquecer a alma de uma relação. Com o tempo, ele foi se perdendo desta ideologia. Totalmente indiferente à gravidez inesperada, Eduardo mal tocava no assunto.

Mas o tempo foi escorrendo pela palma da mão, os meses iam ficando para trás, até que, um dia, uma cigana bateu na porta da casa do jovem casal. Céticos, eles hesitaram em atender. Mas ela insistiu:

- Por favor, abram a porta! Quero resgatar o tempo que passou, quero pegar nas palmas de suas mãos e mostrar um novo caminho! Eu tenho uma mensagem que veio do vasto céu!

Mariana, com sua barriga já um tanto aparente, abriu a porta com muito mau humor. Sem deixar a cigana falar, foi logo lhe dizendo que estava sem dinheiro e muito ocupada.

Pobre Mariana, não tinha consciência de que, naquele exato momento, no mundo, não existia ninguém que precisasse mais de ajuda do que ela.

A mulher, que misteriosamente apareceu numa atitude tão humilde quanto enigmática, pegou as palmas das mãos do casal e juntou-as, apenas dizendo: “Vai chegar o dia em que da chuva surgirá o sol, e que das cinzas surgirá o arco-íris.”

O tempo passou, as páginas foram virando com a ventania do vaivém dos fragmentos do amor. O episódio da cigana não passara de um dia sem sentido. E de sem sentido em sem sentido, foram sufocando-se os sonhos. Até que através de uma ultra-sonografia, que por meses Mariana temeu fazer, os médicos descobriram que Lucas nasceria sem as pernas.

O primeiro sinal de amor parecia surgir! Ágape cravou uma pétala de dor no coração dos jovens pais. Através do sofrimento, eles colocaram os pés no chão, e a vida começou a mudar a partir daquele instante. Como só existem duas opções para a evolução – o sofrimento ou o conhecimento – os caminhos percorridos pelo casal os levaram à primeira opção.

Eles se descobriram mais fortes do que nunca, com demasiado amor no peito. Olhavam com ternura para as pessoas ao redor e desvendaram outras faces de si mesmos que estavam escondidas em seus âmagos.

O tempo parou no dia 21 de novembro de 1984. Numa tarde intensamente chuvosa, Lucas nasceu. E, para surpresa de toda família, ele reluzia como o sol e tinha as duas pernas. A comoção foi enorme! Todos, inclusive os médicos, achavam que era um milagre. Mariana, ao olhar pela janela do quarto, percebeu que a luz do sol estava se sobrepondo à chuva, fazendo surgir um arco-íris. Ali, ela se entregou às lágrimas, pois, ao lembrar-se das palavras da cigana, viu a imagem da mulher alumiando o céu, como um anjo.

Alguns dias depois, já em casa, Eduardo jogou no lixo as cinzas das fotos que outrora queimara, na tentativa de divorciar-se do amor. E fez um novo álbum de família. Naquele momento, Eduardo e Mariana entenderam o sentido do amor. Mais do que chama, o amor é luz. Mais do que paixão, o amor é amizade. Mais do que tentativa, o amor é perseverança. E assim o amor caminha, com ou sem duas pernas.

Nathalia Wigg

(Texto publicado no livro "Essência Azul")