
Entrevista concedida para 39° edição da Revista Agito Rio (junho de 2009), na seção “Eu agito o Rio”, págs. 10, 11 e 12.
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Entrevista na íntegra:
Qual é o seu sonho? Se
você fizer esta pergunta a seus amigos e conhecidos, verá que grande
parte das respostas será relacionada a bens materiais e ambições
pessoais. Estamos vivendo em uma era onde as pessoas trabalham
exaustivamente para pagar as contas e sustentar seus luxos – baseados
na imposição da mídia –, e acabam deixando de lado os pequenos prazeres
da vida. “Falta tempo” para almoçar com a família, levar os filhos para
contemplar o pôr do sol, conversar com aquele velho amigo de infância
com quem convivíamos diariamente e, principalmente, para dialogarmos
com alguém que há um bom tempo está em segundo plano na nossa agenda:
nós mesmos. A importância do autoconhecimento para o cultivo de um
relacionamento saudável com o próximo é um dos temas abordados pela
escritora carioca Nathalia Wigg em seu recente livro “Essência Azul- O
sagrado caminho das estrelas”, que reúne poesias, contos e crônicas em
uma linguagem fácil e transmitindo lições de vida surpreendentes. A
sabedoria que a jovem passa através da escrita se reflete no seu jeito
calmo, tranquilo, quase tímido. A espiritualidade sempre esteve
presente na vida da escritora de apenas 24 anos e com um currículo
brilhante para a pouca idade. Nathalia é formada em Letras, faz
pós-graduação em Língua Portuguesa, já ganhou diversos prêmios
literários e atualmente trabalha na produção de seu segundo livro,
“Revelando o oculto (Histórias reais)”, que será lançado ainda este
ano. Em conversa com a Agito Rio, no Palácio do Catete, Nathalia conta
um pouco de suas experiências espirituais e fala sobre a importância do
autoconhecimento e do perdão como caminhos para uma vida mais feliz. (Por Fernanda Araújo)
Fale um pouco sobre os trabalhos que vem fazendo. Como é o seu dia a dia?
Movimentado
e inspirado. Muitas vezes viro noites trabalhando na produção de textos
e traçando planos de divulgação. O trabalho é árduo, mas quando amamos
profundamente aquilo que fazemos tudo acaba fluindo. Esse ano termino a
Pós e publico mais um livro, no qual vou contar algumas das
experiências espirituais vividas por mim.
Você descobriu a
vocação para a literatura ao sonhar com um misterioso mago que a
inspirou a ingressar no mundo literário. A partir daí começou a ter
diversos sonhos espirituais e em um deles surgiu a inspiração para
escrever “Ainda Menino”, que faz parte de seu livro “Essência Azul”.
Conte um pouco sobre esses sonhos e por que resolveu botar em prática
as inspirações recebidas.
Sempre tive uma certa percepção
extra-sensorial. Aos 11 anos de idade uma vizinha me falou de uma
exposição de quadros que estava acontecendo e que precisava comprar o
quadro de um mago. Fui até a exposição, comprei o tal quadro e pendurei
no meu quarto. No mês seguinte tive um sonho muito interessante, no
qual recebi uma mensagem telepática através do olhar dele. Foi
incrível, quando acordei me lembrei de uma história que nunca tinha
ouvido falar antes. O mago acabou se tornando um ponto de partida na
minha carreira. Tive outros sonhos espirituais e um deles foi com o meu
avô: ele flutuava sobre um jardim e o início de uma poesia foi
“soprada” no meu ouvido. Ao acordar, a poesia já estava toda na minha
cabeça, então, surgiu “Ainda menino”. Meu avô tem 81 anos. Nesse sonho
o vi numa perspectiva diferente: eu ainda não tinha reencarnado neste
plano. É como se do outro plano tivesse acompanhado a caminhada dele
até o dia em que nasci. Resolvi levar tais inspirações adiante, porque
tenho consciência de que posso e devo ajudar as pessoas de alguma
forma.
Esse mesmo mago lhe disse que sua vida se
transformaria em livro e posteriormente em filme. O que este mago
representa para você? Você pensa em transformar sua história em filme?
Ele
representa um sinal sagrado, o inicio de uma trajetória literária. Quem
ele é não sei dizer. Pode ser um velho amigo, a minha própria alma, um
guia espiritual ou uma missão. Quanto ao filme, muitas águas ainda vão
rolar... um passo de cada vez.
Desde então você se sentiu
motivada a procurar um psicanalista para se conhecer melhor e desvendar
esse seu lado espiritual mais aflorado. Suas consultas, entretanto,
também transcendiam o comum. O que aconteceu de extraordinário e o que
aprendeu durante o tempo em que fez psicanálise?
Procurei a
psicanálise com aproximadamente 17 anos. As consultas que tive foram de
extrema importância, pois me ajudaram a ter o conhecimento que tenho
hoje sobre a minha psique e sobre o ser humano em geral. Uma coisa
acaba ligando a outra, pois para escrever é fundamental ter essa noção
sobre a essência humana. Os fatos extraordinários sempre aconteceram de
alguma forma na minha vida, e, apesar de a abordagem espiritual não
fazer parte de uma sessão de psicanálise, eu acabava levando alguns
casos que aconteciam comigo à minha psicanalista. Uma vez, durante a
consulta, comecei a escutar o que parecia um choro através da
frequência do ar condicionado. Ela também ouviu e perguntei o que
fazer. Ela falou simplesmente: “silencia”. Logo em seguida um amigo
cineasta me ligou e falou que o amigo dele havia sido assassinado. Acho
que aconteceu alguma espécie de comunicação naquele momento.
Qual sua religião? Você acredita em vidas passadas e na influência delas sobre quem somos hoje e quem seremos amanhã?
A
minha religião é o amor. O amor é a manifestação de Deus. Logo, não
devemos rotular Deus a uma religião, mas simplesmente senti-lo.
Todavia, existem algumas religiões cujas filosofias me identifico: o
budismo e o espiritismo. Sinto-me atraída por qualquer celebração
espiritual que tenha por o objetivo o respeito, o amor e a consciência,
independe de religiões. Estou convicta de que existem vidas passadas e
futuras. Há uns dois anos tive um sonho no qual estava em um lugar
lindo e sentia muita paz. A natureza era diferente, mais viva e não
havia poluição. Estava conversando com uma espécie de guia que me
falava sobre a missão que eu teria com a escrita aqui nesta vida e
inclusive mostrava alguns jornais para me orientar. Acordei encantada.
Acredito que haja influência sim, entretanto, na vida temos constantes
oportunidades de transformar qualquer resquício de negatividade em
positividade.
Do que trata o livro “Essência Azul – O sagrado
caminho das estrelas”, que você lançou em 2008? De onde tira inspiração
para escrever suas obras?
“Essência Azul” é um conjunto de
histórias que instigam a reflexão. Ao todo são 36 textos em forma de
contos, crônicas e ensaios, 9 poesias que completam os contos e 13
ilustrações. Todo conteúdo é bem profundo, aborda o poder do
autoconhecimento e do amor. A inspiração vem de um profundo estado de
concentração e sintonia com uma consciência maior. A técnica e a
inspiração devem caminhar sempre juntas, caso contrário o trabalho fica
deficiente.
Você já recebeu diversos prêmios e tem um
currículo e tanto para sua idade. Você esperava um retorno tão rápido?
Fale um pouco sobre esses prêmios e o que mais te marcou ao longo de
sua carreira.
O retorno foi suado, nada caiu do céu. Venho
me preparando desde o momento em que sonhei com o mago. Em um ano,
trabalho o equivalente a cinco. Tem dias em que passo mais de 15 horas
me dedicando à literatura. Sou muito grata por tudo que conquistei até
hoje e sei que ainda tenho muito chão pela frente. Ganhei alguns
prêmios bem bacanas ao longo de minha carreira. Em um deles fiquei em
1° lugar: foi o II Concurso Nacional Elos de Versos. Mas o que mais me
marcou foi um concurso internacional que, entre 6.663 inscrições,
fiquei em 9° lugar, ganhando o título “Cavaleiro dragão”; por
coincidência, tenho um dragão tatuado, que representa sabedoria,
proteção, força e luz.
Além de escritora, você também já
atuou em teatro, pincelou quadros, desenhou a grafite, compôs letras de
música. Se não fosse escritora que caminho gostaria de seguir?
A
arte está bastante impregnada em mim, especialmente a arte da escrita.
Quando minha mãe estava grávida, meu pai começou a ter um comportamento
atípico: sentia uma enorme vontade de produzir textos e começou a
escrever um livro. Quando nasci, a vontade parou e o livro ficou
incompleto. Se não fosse escritora, talvez seria psicanalista,
publicitária ou me tornaria monge. Mas o que realmente toca o meu
coração é escrever.
Desde a infância você já tinha uma espécie de mediunidade. Como sua família lidou com isso e como foi sua infância?
Sempre
fui muito introspectiva, quieta e pensava sobre assuntos que não faziam
parte da realidade de uma criança. Minha família por parte de pai tem
um histórico de casos envolvendo experiências espirituais, então,
sempre tive espaço para deixar a minha essência aflorar. Sou muito
grata a ela e ao meu namorado, que também é um grande companheiro e
amigo.
O imediatismo é uma característica predominante da
juventude atual, levando alguns jovens a caminhos desastrosos como o
mundo das drogas e da prostituição. Que conselho você daria para os
pais ou os próprios jovens que ainda não encontraram o caminho da
maturidade? Você se considera diferente das pessoas de sua idade?
Acho
que tudo tem seu tempo certo. O conselho deve ser dado a quem estiver
preparado para ouvi-lo. O caminho da maturidade é único para cada
pessoa, cada um tem a sua jornada. A realidade de um indivíduo só se
transforma no momento em que uma modificação interna já estiver
acontecendo. Quando essa busca começa a acontecer, é aí que entra o
conselho: tenha perseverança, perdoe seus fantasmas do passado e a
todos que lhe magoaram de alguma forma, perdoe a si mesmo. Liberte-se
do passado! A liberdade consiste em olhar para frente. Tenho amigos de
todas as idades. O que importa para mim não é a faixa etária e sim a
identificação, que pode acontecer tanto com uma pessoa de 50 anos
quanto com uma de 18.
Você diz que “o autoconhecimento e a
consciência são pontes vitalícias que nos levam ao mundo dos sonhos,
das realizações, da iluminação e do amor”. Como uma pessoa que nunca
teve qualquer contato com a espiritualidade e a busca de si próprio
pode começar esse caminho de cura interior e atingir um estágio de
plenitude?
A cura vem do ato de perdoar. Vivemos
constantemente repletos de fantasmas: um relacionamento mal resolvido,
problemas e mágoas familiares, ofensas de estranhos e por aí vai... A
gênese da cura começa no perdão. Às vezes as pessoas não têm contato
com a espiritualidade e procuram uma religião. Essa busca acaba se
tornando um rótulo: “vou buscar alguma religião e seguir o que ela
manda”. Mas será que esta pessoa está ajudando ao próximo, está
trabalhando o amor de alguma forma? O amor e o perdão são fundamentais
para se alcançar a paz interna. A plenitude começa a surgir à medida
que o medo vai embora. O medo é o único sentimento capaz de
paralisar.
No conto “O malandrinho de porcelana e a
prostituta santa” você conta a história de um garoto de apenas 10 anos
que vendia cocaína para uma jovem que havia acabado de se prostituir
para conseguir algum dinheiro para sua mãe e, arrependida, entregou
tudo o que havia levantado para o menino, que se não levasse o dinheiro
da droga para casa seria espancado pelo pai. Duas vítimas da sociedade
e de uma triste realidade que aflige grande parte da população. As
poesias que escreve são baseadas em situações vividas por você?
Vivo
todos os meus textos de alguma forma. No livro “Essência Azul”, a
maioria das histórias é ficção, o que não tira a veracidade do
sentimento depositado ali. É ficção por existir essa criação literária,
mas a mensagem é extremamente real e humana. Vivo meus personagens
profundamente; sorrio e choro com eles muitas vezes. “O malandrinho de
porcelana e a prostituta santa”, por exemplo, é um conto que aborda a
realidade das crianças de rua que, em vez de estarem na escola
estudando, ficam pelas ruas fazendo o que não devem. Na realidade, todo
marginal já foi uma criança pura, que foi podada de sonhar e despida de
amor.
Que livros você recomenda para quem quer se inteirar um pouco mais do assunto e se aprofundar na busca do conhecimento interior?
“O
poder do silêncio”, de Eckhart Tolle. “Humano, Demasiado humano”, de
Nietzsche. “Palavras de sabedoria”, de Dalai-Lama. “O diário de um
mago”, de Paulo Coelho. “Existe vida após a morte?”, de Robert
Kastenbaum.
Quais os seus próximos projetos?
Esse
ano lançarei o livro “Revelando o oculto” (Histórias reais), na
seqüência, um livro de poesias e o livro do misterioso mago, que será
um romance. Continuarei escrevendo colunas e participando de
antologias. Ainda este ano, estarei na Bienal divulgando “Essência
Azul”.
“Liguei a televisão e me deparei com comerciais,
novelas, pessoas que se esvaíam de amor e subsidiavam-se com sapatos,
casacos e cintos da moda! Todos eles, claro, feitos com pele de onça,
leopardo, e por aí vai. Pessoas que se alienam de seus princípios
morais não seriam prostitutas? Pelo que meu humilde conhecimento me
permite, segundo o dicionário, prostituir é dar uso indevido ou
desonrar alguma coisa. Se uma parte das pessoas desonra a moral, a
ética, os valores humanos; essas pessoas estão fazendo uso indevido de
seus espíritos. Prostituir vai além do corpo!”
(“O malandrinho de porcelana e a prostituta santa”)
Rapidinhas
Um sonho: Ver um mundo melhor
Um(a) escritor(a): Clarice Lispector
Um livro: “Humano, Demasiado humano”, de Nietzsche.
Um filme: “Protegida por um anjo”
Restaurante: Spoleto. Amo massa; sou vegetariana há 12 anos.
Praia que frequenta: Todas! Não costumo pegar sol, mas amo contemplar o nascer e o pôr do sol.
Lazer: Meditar, escrever, sair com os amigos, namorar, viajar.
Música: Celtas, medievais, MPB, rock não muito pesado e a musicalidade do silêncio.
Vício: Tomar chá de erva-doce, camomila e chá preto.
Uma frase: Mais do que correr atrás dos sonhos, é preciso caminhar lado a lado com eles!
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